LIVRO QUINTAL: DIÁRIO PARA VAGA-LUMES EM DIAS DE CHUVA PDF Gilucci Augusto

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Resumo

Vagalumes, luzes que acendem e nos fazem ver a esperança. E, por falar em vagalumes, me lembro das palavras do filósofo francês Didi-Hubermam: “Para conhecer os vagalumes, é preciso observá-los no presente de sua sobrevivência: é preciso vê-los dançar vivos no meio da noite, ainda que essa noite seja varrida por alguns ferozes projetores.” Dessa forma, sinto o lampejar do lume de Gilucci Augusto, através das emblemáticas poesias que ele nos presenteia com seu quintal de memórias, nos transportando para um singular momento, em que os seus vagalumes dançavam seguros na chuva.
Seu quintal de memórias – as lembranças de uma vida – ele compartilha e nos faz conhecer suas andanças infantis, ressoando os ecos do garoto em um homem que desenha em palavras seus sentimentos ternos e eternos, que se misturam em um jogo sinestésico de cheiros e sabores, chuvas e travessuras, embalados pelo carinho transmutado em afeto na figura de sua vó. O pisca-pisca do vagalume transforma seu quintal numa Las Vegas… um elo perdido, lugar sacro, onde sua imaginação se misturava com aventuras incessantes, movimento comum, para nós, meninos e meninas de cidades do interior.
Me deleitando em suas lembranças, viajo com ele e percebo que seu quintal, apesar de ser só dele, também é tão meu, que sinto nele habitar. E, nessa sinfonia tocada pelo seu título, vagalumes que dançam na chuva, lembro do meu quintal, que, quando criança, acreditando que fosse minha fortaleza secreta, vi os leves brilhos dos vagalumes dançando entre os pingos de chuva. Não muito distante geograficamente do Gilucci, já que morávamos quase na mesma rua, nossas lembranças se tocam, principalmente quando vemos, em uma noite escura, o vagalume que insiste em piscar, em lutar contra as fortes luzes artificiais, mostrando que (ser) vagalume é também resistir, é lutar contra as opressões e obstáculos que tendem a surgir em nosso caminho, e que a resistência nunca foi uma opção, mas uma vocação que persiste em nos acompanhar.
Certa vez perguntei ao universo para que serviam os vagalumes, já que sua luz só dura um dia e logo se apaga e ele morre. Essa resposta me veio agora com o livro Quintal: diário para vagalumes em dia de chuva, pois eles servem para nos curar desses abusos que o mundo impõe, para abrilhantar nossa vida, para nos cercar de alívio e para nos fazer acreditar que, sim, temos futuro, luzindo na noite como lampejam os brilhantes versos do querido Gilucci, que, como vagalumes, riscam o céu e nos traz acalento nesses dias difíceis.
Nem tudo está perdido… ainda nos resta luz, ainda temos os vagalumes!
Aline Nery – Poeta e professora.

Uma mitologia toda própria: o quintal sagrado

[…] Em Quintal: diário para vaga-lumes em dias de chuva, de Gilucci Augusto, há diversas instâncias do sagrado resgatadas e não policiadas pela instituição religiosa, mas atravessadas pelo corpo como entidade mito-poética, seja na representação do sexo, seja através do estômago, seja pela ancestralidade. Aqui, não importa a verdade, mas a simbologia do rito e do devaneio.
A tripartite acima referida constitui um dos eixos possíveis de leitura deste Quintal que resguarda uma “vó-oração” e preenche de sortilégios e invocações os olhos de xm leitxr atentx.
Tudo o que se pode ingerir, o alimento, a água, o “organismo vivo”, compõe uma terra habitada por deusas-fêmeas cuja característica fulcral é a carnalidade – terreno contraposto a um herbário com ares de meninice mesclada ao carnaval de temperos a desaguar numa atmosfera nômade.
Clarissa Macedo, escritora.